domingo, 8 de junho de 2008

“A minha pátria é a língua portuguesa” Ou o “Manifesto de um imbecil que acha que é uma espécie de D. Quixote”*


Dizia o Fernando Pessoa que “a minha pátria é a língua portuguesa.” E dizia muito bem! A nossa língua é uma espécie de casa comum cultural sob a qual nos abrigamos para podermos comunicar. Essa casa define-nos como comunidade, como membros de uma mesma família. Pois eu sinto-me como se me tivessem assaltado a casa. Encapuçados, essa quadrilha que responde pelo nome de “acordo ortográfico” entrou pela casa dentro e pilhou algumas das características da nossa língua. E quando digo nossa, refiro-me a Portugal, visto que aparentemente, apesar da língua se chamar portuguesa (vá-se lá perceber porquê!) ela é mais de outros do que nossa. Só assim se justifica que sejamos nós a adaptarmos a nossa escrita à forma como habitualmente se escreve noutros países em detrimento de mantermos os nossos hábitos. Nas questões culturais, como em muitas outras, Portugal ainda anda a reboque dos outros em vez de rebocar. Muitos dirão que já antes mudámos a forma como se escrevem algumas palavras e que tudo não passa de uma “simples” perda de consoantes mudas e um ou outro hífen. De facto [e esta palavra é uma das afectadas (esta também), passa a ser fato], é verdade que já registámos mudanças dessas na nossa História. Mas também antes tínhamos a pena de morte e percebam que não era uma coisa boa e por isso acabaram com ela. Ora este acordo ortográfico é uma espécie de assassino silencioso que vai aos poucos matar algumas das nossas (felizmente) diferenças e riquezas linguísticas. Eu confesso que não sou nenhum especialista nesta matéria, mas as palavras são o meu trabalho! E não discutindo as palavras homófonas, homógrafas e homónimas que entretanto vão desaparecer ou surgir, reservo-me o direito de estar indignado com tudo isto! E acho bastante estranho que tenham passado um atestado de incompetência às instituições habilitadas que foram consultadas para saber se esta medida tinha “pernas para andar”! Depois das avaliações negativas, o estado decide mesmo assim ratificar o acordo (vá-se lá entender porquê). Que raio???!!! Desde a década de 80 que este acordo estava num “vai, não vai” para ser aprovado, pedem-se opiniões que são negativas e depois fazemos ouvidos de mercador aos pareceres? Provavelmente os pareceres só servem para as pontes de betão, porque para esta ponte que é a nossa língua não serviu para nada. Se, como disse no início, “a minha pátria é a língua portuguesa”, então hoje sinto-me um pouco mais exilado!

PS – Este artigo é desprovido de qualquer tipo de rigor cientifico e ou/legal. Se quiserem saber alguma coisa mais a sério sobre esta defesa do não ao acordo, podem sempre consultar a seguinte ligação: http://daliteratura.blogspot.com/2008/04/acordo-ortogrfico-3.html
Aqui encontrarão, na íntegra, o texto da intervenção de Graça Moura na Assembleia da República sobre o dito acordo.

* Este título alternativo serve só para que em caso de procedimento legal contra a minha opinião eu possa alegar insanidade!